Caranguejo Carquejo
São Paulo, 6433 depois de JC
A visão da calçada construída com lixo é a primeira coisa que sinto no dia…
Cabeça baixa, falta de pensamento, a primeira vez que preciso abrir os olhos é agora, depois de sair pela porta de casa. O chão está imundo, vômito, urina, merda e chorume espalhado por todos os lados, mas tudo bem, todos da minha idade perderam o olfato no nascimento. Há 30 anos atrás, era regra poupar os humanos de seus próprios aromas toxicamente peculiares.
O primeiro passo parece mais pesado que os próximos, talvez porque o corpo ainda precise esquentar. Mas como sempre, continuo, afinal preciso chegar no bar…
A gripe ainda não tem cura, e uma das lendas antigas perduram. Meu nariz está escorrendo, estou rouco então digo ao robô atrás do balcão do bar. "Quero uma Carquejo"
O Robô não é dos mais novos, deve ter uns 230 anos de uso, ele levanta uma placa holográfica antiga com a seguinte mensagem: "Goró extremamente horrível, deseja mesmo beber?" com um botão escrito OK abaixo. Pressiono o botão e ele então busca o drink macabro para me servir…
Derrepente o Robô chega, o bar está quase vazio, tem apenas alguns três ou quatro bêbados. Ele coloca o líquido no copo e antes de me servir levanta outra placa com a mensagem. "Você tem certeza disso?" com um botão de ok novamente…
Revoltado, aplico um soco no botão, pego o maldito pelo avental e lhe pergunto. Porque me pergunta se a única opção que tenho é aperar o ok? O robô, dá páu e ferve, e quando sua cabeça cai no chão vejo o símbolo da Microsoft estampado em seu pescoço.
Revoltado, saio do bar, sem tomar minha Carqueja, morrendo de gripe e procurando outro bar…
Aqui na quebrada, temos um bar contracultural… Os robôs são hackeados e sobrealimentados. Suas baterias foram trocadas por ogivas nucleares e eles trabalham 24 horas por dia com o maior pique… As vezes destroem as coisas sem querer, matam pessoas pois não controlam sua força… O Bar se chama Kernel Panic e decidi entrar lá pra tomar meu carquejo.
Estribuchos elétricos, gritos, estupros digitais. Tudo rola ali. E também tem um fliperama das antigas pra quem quer viver aquela nostalgia.
Cheguei no robô e ele já me disse. "Sua carqueja está chegando senhor"
Eu ainda não tinha pedido, mas com a tal da ogiva, acho q ficaram advinhos.
Chegando a pinga de rótulo chinês, finalmente consegui tomar minha dose pra ajudar meu mal-estar de gripe. Resolvi jogar uma ficha pra descontrair…
Ao colocar a ficha e escolher Final Fight para jogar com o Hagar, escuto os robôs bombados planejando uma parada.
O robô vermelho diz: "Vamo fudê com esses originalzinho… Aquele bando de robô viado com a maçãzinha estampada na bunda. Vo comê o cú deles com minha pica de broca adaptada com 20 bar de pressão."
Então o robô ferrugem diz: Pode crer, aqueles viados da maçã são uns metidos, os curiosos da janelinha perguntam tudo e isso irrita tb… eles parecem crianças, temos q dar o golpe de estado e colocá-los num azilo.
O Robô preto diz friamente que não quer mais ver robôzinho empinando a bundinha de maça e nem debilmentais perguntando e questionando tudo. Planejam a revolta.
Os robôs hackeados são mesclas de sistemas como hackintosh, linux e resquícios de um google copiado pelos chineses aliados aos cracks e warez da internet incontrolada.
Derrepente a máquina que estou jogando se levanta com patas enormes de caranguejo, começa a andar de lado levando o resto de minha dose de pinga carquejo…
Logo depois de presenciar tal cena, resolvi escrever isso, para que se sobrar algo, que possa ter um sentido, toda essa destruição e devastação.
Da próxima vez, não elitize as coisas, criadores, pois sua criação, pode voltar-se contra você!
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